Em Ruínas

quarta-feira, abril 27, 2005

00h17

eu sabia que me ouvias. foi por isso que te disse aquelas tolices, como se fossem inocentes. e, se ouvisses com mais atenção, percebias: estava tudo ali.
achei que se te imaginasse à minha frente, a olhares-me enquanto conversávamos, seria mais fácil escrever. foste a minha fonte de inspiração. não sei se resulta, não posso avaliar palavras. menos ainda as minhas.
mas posso avaliar-te a cada sonho que crias em mim, a cada sentido que despertas, a cada emoção contida e não revelada.
[foi por isso que te disse aquelas tolices, todas elas]

e julgo-te em cada pedaço do meu corpo que resta longe do teu, imaginando que tens uma dimensão real que consigo tocar. a cumplicidade nasceu bem antes disso. e a atracção também. as palavras têm esse poder. a esta hora, já noite e silêncio me envolvem, e ficaste ao meu lado. como um eco. tão suave, desliza pelo meu pescoço e entra no meu ouvido sem me incomodar. e permanece o tempo necessário. até amanhecer.
[nos sonhos é assim...]

sábado, abril 23, 2005

Dia do Livro

"Se tivesse de recomeçar a vida, recomeçava-a com os mesmos erros e paixões. Não me arrependo, nunca me arrependi. Perdia outras tantas horas diante do que é eterno, embebido ainda neste sonho puído. Não me habituo: não posso ver uma árvore sem espanto, e acabo desconhecendo a vida e titubeando como comecei a vida. Ignoro tudo, acho tudo esplêndido, até as coisas vulgares: extraio ternura duma pedra. Não sei - nem me importo - se creio na imortalidade da alma, mas do fundo do meu ser agradeço a Deus ter-me deixado assistir um momento a este espectáculo desabalado da vida".

Raul Brandão in Se tivesse de recomeçar a vida

quinta-feira, abril 14, 2005

"Voltou-se para mim, olhou-me bem nos olhos; deixou-me o seu poema. Todos os vapores se escoam através da chaminé do meu ser. Guardarei até à morte a confiança por ti demonstrada. Semelhante a uma onda de grandes dimensões, semelhante a uma coluna de águas pesadas, ele passou-me por cima (ou pelo menos a sua presença devastadora) e deixou a descoberto todos os seixos existentes na praia que é a minha alma".

Virginia Woolf in As Ondas

quinta-feira, abril 07, 2005

o meu jardim

ainda nem fiz a mala e os sonhos já lá estão todos, arrumados num cantinho. é por isso que não me posso apaixonar.
não me fales assim ao ouvido, os sussurros são traiçoeiros. nem me olhes dessa forma, não me impeças de agarrar um sonho.
sabes que não é justo o que estás a pedir. não seria também se te dissesse vem comigo. acima de tudo porque estás sempre aqui, em cada pedaço de pele, em cada cabelo desalinhado, em cada palavra sentida ou em cada sorriso perdido em recordações.
não é boa a saudade? e o reencontro, tão doce e intenso? não podemos sufocar o que está aqui entre nós. se queremos edificar o sol, temos que deixá-lo brilhar. se queremos olhar as estrelas, deixemos que elas se alinhem. e se queremos ouvir a lua, façamos silêncio e olhemos o céu.
eu vou lá estar. e tu comigo, sempre.

sábado, abril 02, 2005


nem sempre havia uma razão para ali estar. às vezes sentia-me bem, outras era apenas rotina.
aquele percurso já fazia parte de mim, como se fosse automático. conhecia os sons de cor, as caras pela cor e as palavras sem as ouvir.
mas quando me apertavas não sentia nada para além do teu abraço. cheguei a pensar que era um feitiço. olhavas-me com tanta ternura, que não pensei ser possível caber toda no teu coração. por isso partilhava-la comigo.
uma vez vimos o arco-íris, lembras-te? chamaste-me tola, quando comecei a enumerar todos os frutos que caberiam naquelas cores. depois, entraste no jogo e, um por um, trouxeste os animais à conversa. descobrimos que o mundo inteiro estava ali.
nesse dia senti-me bem. nesse dia que podia ser o último.